Comunismo, Igreja e Estado

Interlocutor: O socialismo visa atribuir ao Estado como o oráculo da nossa sociedade no lugar da Igreja de Cristo.

Onde esteve as principais lideranças do eclesiásticas que *não combateram essa heresia* enquanto era apenas um discurso ideológico
❓❓❓❓❓❓
🤔🤔🤔

Eu: Não é o socialismo o único que faz isso. Temos outras doutrinas políticas, os governos, o marketing em prol da sociedade de consumo, os serviços de educação, os meios de comunicação, as organizações e associações. Todos os grupos coletivos possuem suas *agendas* , isto é, objetivos que visam impor à sociedade. O que muda é a extensão dessa agenda (local, nacional, internacional), os interesses dessa agenda (centrados em si mesma ou em classes sociais específicas ou na sociedade em geral) e os métodos utilizados (impositivos ou liberais, abertos ou secretos, pacíficos ou violentos, relacionados  ao discurso e/ou à ação simbólica e/ou à ação pragmática).

Quanto à Igreja, ela estava atuando em diversas frentes ao mesmo tempo, cuidando das suas próprias agendas. E não se pode dizer que ela não fez nada contra o socialismo , basta ver os movimentos e alianças que ela fez no século XX pra evitar o avanço do socialismo  (algumas delas bem infelizes). Quando a Igreja toma posicionamento político, sempre gera uma discussão sobre a separação Igreja e Estado.

E quanto ao socialismo em si, não se pode dizer que ele é o problema mais grave na sociedade. Principalmente se discutirmos de qual tipo de socialismo estamos falando (uns são melhores que outros), e se considerarmos que ele também gera alguns efeitos positivos na sociedade (se esses efeitos positivos compensam os negativos já é outra questão). O que é bom convém ser aceito e o que é ruim convém ser rejeitado, independente de sua origem. A igreja tem coisas boas e ruins, o socialismo tem coisas boas e ruins. O que é preciso fazer é diferenciar uma coisa da outra.

(Resposta em áudio)- ele começa dizendo que a classe artistica e intelectual é de esquerda está unida para destruir a identidade cultural e os valores do Brasil e implantar o socialismo. Depois ele argumenta que a tentativa do estado estabelecer uma moralidade era na verdade uma intervenção do estado sobre a religião, pois a moralidade é atribuída à religião e o estado deveria se basear nessa moralidade para elaborar as leis

Eu: Cara, vc ta confundindo as coisas. Não é objetivo do estado  estabeler uma moralidade, mas sim uma legalidade. O estado atua para manter uma ordem jurídica e social que garanta a sua preservação. O estado funciona a partir do momento que faz as pessoas de um território conviverem de modo relativamente pacífico e ordenem seus trabalhos coletivamente. Para fazer isso, o estado impõe princípios de comportamento que são LEGAIS, mas não necessariamente morais. Pra elaborar leis, o estado pode se basear nos princípios morais que predominam na sociedade no qual está inserido, e pode até usar critérios religiosos, mas um estado laico usa mais critérios éticos (obtidos por meio de reflexões da ação que podem ser aplicadas de modo geral) ou pragmáticos (visando fins práticos específicos).

A intervenção da igreja (e qualquer outra religião) sobre o estado pode gerar os seguintes problemas:
- a Igreja pode usar o aparelho estatal para promover suas próprias agendas, podendo ter agendas que vão contra interesses de grupos específicos ou da sociedade em geral.
- Pode censurar comportamentos contrários aos seus princípios religiosos, mas que não sejam condenáveis do ponto de vista ético ou pragmático.
- o oposto também é verdade, a Igreja pode impor comportamentos coerentes com sua doutrina, mas questionáveis do ponto de vista ético e pragmático.
- Por fim, religião depende de convicção pessoal. É um comportamento e um conjunto de crenças que dificilmente pode ser mudado sem a vontade da pessoa. A Igreja no poder está sujeita à cometer abusos contra pessoas que defendem outras religiões ou sistemas de pensamento contrários ao da Igreja.
--- quanto mais extenso o domínio de um território, maior é a diversidade de pessoas que vivem nele. Leis baseadas em critérios religiosos, étnicos ou culturais são muito mais propensas a perturbar a ordem e o convívio pacífico nessas situações, quando comparados a critérios éticos e pragmáticos.

E isso não é hipotético, mas foi e é exaustivamente observado ao longo da história.

[Eu até pensei em falar sobre as influências não-judaico-cristãs na nossa legislação, mas optei por não fazer isso. Ele não respondeu às minhas colocações]

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